Valderez Nepomuceno

Consciência estética do cotidiano - poesia e prosa

31.10.08

3 - 21 / Valderez Nepomuceno

MARIDO II

à tarde
o homem entrava em casa como domador na jaula
mantendo distância
como se fôssemos, eu e os filhos, animais aprisionados
e famintos

os filhos
refugiavam-se na rua e casa dos amigos
servil — sem saber se era mulher ainda —
eu servia os pratos, as bebidas…
mais tarde, a vagina

e a noite
cruzava a minha vigília mergulhada em ódio
ao lado um corpo rançoso em banha e cheiro de álcool
eu no aguardo… 
qualquer dia tudo aquilo desapareceria da cama
: e esse dia chegou

criado por meiotom.ops    20:09 — Arquivado em: Sem categoria

Poema 3 - 21 / Constâncio Negaro

PÃO

na cozinha
ao sovar a massa na madeira
transpiro o suor dos virgens sedentos
de sexo

depois…

é ver o pão
esculpido pelo calor do forno
ser mastigado
junto ao vinho tinto de mesa
como se o vermelho – resíduo nos lábios –
fosse sangue extraído da própria carne

criado por meiotom.ops    20:07 — Arquivado em: Sem categoria

27.10.08

Poema 2 - 21 / Valderez Nepomuceno


Foto Thierry Tillier

FILHOS II

tantos foram
e tão cruel foi tocar a verdade
de tantas fraldas
e do leite escorrido no ventre
que ter o sexo invadido
noite após noite entre falsos gemidos
pariu o ódio
: único filho aprisionado no ventre
(único poema)

criado por meiotom.ops    9:04 — Arquivado em: Sem categoria

26.10.08

Poema 2 - 21 / Constâncio Negaro

RELANCE

vi de relance
as nádegas do irmão
ao sair da cela
e a imagem me persegue
dia e noite me persegue esta maldita
imagem

: e as rezas não bastam…

criado por meiotom.ops    17:57 — Arquivado em: Sem categoria

18.10.08

VINTE E UM POEMAS SOBRE A MULHER II / E SOBRE A FÉ

DIVIRTA-SE COM OS MEUS, MAIS OS POEMAS DE CONSTÂNCIO NEGARO, AMIGO DE INFÂNCIA, QUE COLOCAREI NO AR SEMANALMENTE:

APRESENTAÇÃO DE VALDEREZ NEPOMUCENO

A poeta que ora apresento ao leitor nasceu no Vale do Sol, região montanhosa e fria, onde passou toda a infância. Infelizmente, a necessidade de uma barragem enterrou a memória da cidade natal, o que obrigou a família a mudar-se, sendo a própria autora quem afirma que sua infância foi enterrada com a cidade, daí não fazer parte de seu universo poético.
Valderez Nepomuceno constrói seus poemas nas experiências do cotidiano, sempre envolvendo o universo feminino. No trabalho Vinte menos um poemas sobre a mulher, a autora apre(e)nde o que invisível na construção de um casamento, fala da sujeição da mulher ao universo masculino, da violência sofrida entre quatro paredes, da carência de amor, do desejo, das fantasias trazidas da infância, da morte e da vida, mas sem perder-se em sentimentalismos, utilizando-se do próprio poema para transitar na fronteira entre o imaginativo e a realidade, negando, no final, a partir de um poema de Fernando Pessoa, a própria existência de autoria.

do amigo

DE POETA PARA POETA

De nada me adianta vasculhar fotografias e vídeos. Não me vejo no que dizem ser a minha pessoa. Só me reconheço na máscara. Não são meus os olhos em grande angular nem o corpo leve como o vento da menina que corre em direção à câmera. Se houvesse registro dos pensamentos… Desde criança quis ser escritora. Escondi tudo em algum arquivo morto. E morri. Acho que me reinventei. A mesma sensação que tive com velhos professores. Não falavam de mim, mas de uma outra. Permaneceram o rosto e o nome. Aliás, o nome foi modificado no dia do casamento. Essa estranheza de um pensamento habitar terras estrangeiras poderia ter me levado ao suicídio, mas me levou ao poema. Dizem que a poesia é o ventre da essência. Não sei teorizar. Sei que a chuva me acordou. Fui até o banheiro e urinei. A insônia sempre me maltratou. Então, comecei a rever vídeos e fotografias. Devolvi tudo ao porão e permaneci no escuro. Sempre trago do armário do sonho alguns delírios. Minha estação de trabalho é uma pequena biblioteca. Eu de calcinha. Diante de mim uma folha de papel em branco e uma caneta. E o som: acasalamento. Escrever tem muito de namorar as palavras…

 

APRESENTAÇÃO DE CONSTÂNCIO NEGARO

O poeta que ora apresento ao leitor nasceu no agreste, onde passou toda a infância. Conheceu a miséria de perto e sobreviveu a ela. Tinha grande admiração pelos milagres que diziam vindos de padre Cícero, mas sentia-se um abandonado pelo santo. Vislumbrado com a possibilidade de sair de sua terra, aceitou convite para estudar em colégio de religiosos, tornando-se padre.
Irmão Constâncio, assim o chamavam os pares e os devotos, conheceu de perto a dor provocada pelo celibato, percebia na irmandade um silêncio absoluto sobre as questões que tanto o incomodavam. Fechado em sua solidão, escreveu o livro de poesia que, agora, depois de muita insistência, coloco no ar, dedicado a uma transformista de nome Madalena, a quem devota um grande amor secreto. Do livro, composto de trezentos poemas, selecionei vinte para apresentar ao público.
Irmão Constâncio constrói seus poemas na dor e no sofrimento de um humano que desejam castrado de sua sexualidade. O autor capta a atmosfera existente na clausura, fala dos desejos reprimidos, da sexualidade exacerbada pelo proibido e da solidão experimentada nas celas. É através do poema, sem utilizar-se do místico e de formas metafóricas, diferentemente de São João da Cruz, que Irmão Constâncio vai (des)construindo o grande simulacro criado pela igreja a que pertenceu, permitindo ao leitor uma reflexão mais apurada sobre a vida dos reclusos.

a editora

Poema I - 21 / Valderez Nepomuceno

ACASALAMENTO II

casar
é fechar-se nas desoras
das sereias
: um renunciar do cabaço

casar
é ter sonhos estuprados
e ante o enrijecido
resenhar desejos nas paredes

casar
é estar no não-lugar
desleixar-se
diante do não-sentido
e esvair-se
como o mênstruo incontido

: falta o sentido 
 

Poema I - 21 / Constâncio Negaro

ORAÇÕES

ajoelhado
diante de lençol nácar
no silêncio do espaço sacro
enquanto os irmãos dormem
eu me masturbo
diante do crucifixo
que ejacula orações mudas

criado por meiotom.ops    12:33 — Arquivado em: poesia

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